Policial

PM tem média de 120 afastamentos por ano por doenças mentais

PM tem média de 120 afastamentos por ano por doenças mentais

Atuar como “policial militar” está entre as atividades mais perigosas do país. Devido aos riscos da profissão, os militares acabam desenvolvendo problemas psicológicos e isso pode evoluir para casos mais extremos, como suicídio. A constatação foi feita pela Diretoria de Saúde da Polícia Militar de Mato Grosso.

O tenente-coronel Diego Tocantins, coordenador do setor explica que os militares estão sujeitos a situações de violência extrema e isso afeta os profissionais de diversas formas.

“A profissão é, por natureza, lidar com circunstâncias adversas. Ela lida com a violência, lida com as mazelas sociais, com ocorrências trágicas, com suicídio, mortes violentas, estupros. Então, é um cenário em que o policial, por mais preparado que esteja, pode absorver alguma coisa desse quadro emocional que está se deparando. Ele não é uma máquina, é um ser humano”, disse Tocantins.

Segundo o tenente-coronel, as taxas de suicídio na Polícia Militar são baixas. No entanto, ele afirma que as taxas de afastamento por doenças mentais são "alarmantes".

Mato Grosso possui cerca de 7,4 mil PMs e a média é de 120 afastamentos de policiais ao ano. No entanto, um mesmo militar pode ser afastado de suas funções mais de uma vez no mesmo ano.

Só no primeiro semestre de 2019, a Polícia Militar já registrou um caso de suicídio, enquanto em todo o ano passado foram duas mortes contabilizadas. Em 2017, também foi registrado um caso de suicídio dentro da PM.

Pensando na saúde dos profissionais, a Corporação passou a implantar um programa de prevenção ao suicídio e transtornos mentais. Por meio de palestras em todo o Estado, um grupo de psicólogos busca conscientizar os profissionais sobre os problemas que podem aparecer com o grande estresse causado pela profissão.

Junto com o projeto, o tenente-coronel Diego afirma estar quebrando um preconceito que é natural quando se trata de saúde mental.

“Existe uma questão cultural de que problemas de saúde são somente físicos. Quando se fala de mente, a cultura diz que não precisamos de um psicólogo, que isso é 'coisa de louco', associando a doença mental à loucura. Há um preconceito a ser quebrado e que vem sendo quebrado na Polícia Militar”, relata.

Além disso, a Diretoria de Saúde também conta com uma equipe com psicólogos, assistentes sociais, médicos, odontologistas e outros para atender o militar e sua família, que também pode sofrer com as adversidades da profissão. 

 

Sinais de alerta

Segundo a psicóloga da Polícia Militar, Cirlene Campos, o estresse é preocupante, pois pode se desenvolver para casos mais graves, como o suicídio.

“O estresse é uma reação do corpo a um momento estressante, mas depois o corpo volta ao normal. Já o estresse agudo é quando esses estímulos que causam as reações agudas ao estresse se repetem com frequência e o policial não consegue voltar ao normal. Ele fica o tempo todo com os sintomas do estresse”, explicou.

Este último tipo afeta diversas áreas da vida e pode ser um fator de risco para ansiedade e depressão, de acordo com Cirlene.

“É possível que esse policial, em algum patamar da vida, venha a desenvolver alguma patologia mental. Seja uma ansiedade, um estresse mais agudo ou mesmo um quadro depressivo mais agravado”, alertou.

Além disso, há ainda registros de casos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), que é quando o episódio que desencadeou o estresse agudo representou ameaça à sua vida ou à vida de terceiros.

Campos revela que os próprios colegas de farda podem ajudar ao identificar mudanças no comportamento do policial que sofre com algum distúrbio.

Conforme a psicóloga, os principais sinais comportamentais de que há algo errado são a fadiga, dificuldade em relaxar, alterações do sono, dores no peito, dores musculares em geral, irritabilidade, dores de cabeça e desânimo.

 

Tratamento

O tenente-coronel Diego relata que os militares chegam à Diretoria de Saúde por conta própria ou por encaminhamento do comandante.

O policial, então, passa por uma avaliação, onde responde a um questionário elaborado especialmente para casos de estresse e, conforme os resultados, será encaminhado para o tratamento.

Dependendo do grau crítico de estresse ou outra patologia que esse militar estiver, ele pode ser afastado das ruas para se dedicar totalmente ao tratamento. O tempo de afastamento pode variar de acordo com cada caso, porém o PM também pode ser remanejado para funções menos perigosas.

“Tem situações em que, mesmo ele estando com um quadro patológico, não necessita ser retirado totalmente do serviço. Nesse caso, ele vai ser inserido no tratamento, mas pode trabalhar nas demandas mais tranquilas, mais administrativas”, esclareceu o coronel.

De acordo com a psicóloga, o tratamento do militar consiste em sessões de terapia e, em alguns casos, podem ser prescritos remédios psiquiátricos - sempre após uma avaliação médica.

“É preciso identificar os estressores que mais pesam no policial. Só assim a gente vai conseguir tratar o problema”, disse Cirlene.